Senhora do samba
Aos 73 anos Dona Inah canta obra de Eduardo Gudin em segundo CD

Sambas de Eduardo Gudin e seus parceiros ganham releitura no segundo CD de Dona Inah, Olha quem chega, lançado pela Dabliú Discos. Acompanhada por grandes nomes do samba paulistano, incluindo integrantes do Quinteto em Branco e Preto, a cantora encara com personalidade o desafio.

A biografia de Dona Inah é, no mínimo, curiosa. A cantora lançou seu primeiro trabalho em 2004, aos 65 anos. Divino samba meu rendeu a ela o Prêmio Tim no ano seguinte na categoria Revelação. A carreira, que havia sido interrompida no início da década de 60 por causa do casamento, ganhou novo fôlego e Dona Inah passou os últimos anos viajando para shows. Na França foi coroada como "Rainha do samba" em texto publicado no jornal Libértation. No Marrocos, onde participou de um festival, cantou para um público de cerca de 15 mil pessoas.

No texto escrito para o encarte do CD, Paulo Cesar Pinheiro resume: "Dona Inah é uma cantadeira realmente popular, do botequim, da esquina, do palco, da vida. Tem a voz das amas-de-leite do tempo do cativeiro, das lavadeiras de beira-rio, das crooners enfumaçadas dos cabarés antigos, das pastoras das primeiras escolas de samba". Entre as 16 composições de Gudin presentes no disco, sete trazem letra de Paulo Cesar.

Eduardo Gudin é grande compositor. Seu extenso e valioso repertório é prova viva - e atuante - de que São Paulo é berço de nobres sambas. O CD de Dona Inah chega ao mercado pouco antes de Leila Pinheiro lançar um trabalho dedicado também ao compositor. Antes das duas, porém, em 2001 Fátima Guedes já havia reunido sambas de Gudin em Luzes da mesma luz. Ao contrário da saturação e repetição que os tributos podem indicar, a música de Gudin tem quilate suficiente para renascer na leitura de cada uma delas.

Dona Inah encara o desafio de reler duas composições já cantadas por Leila: Verde, música que revelou a cantora paraense, e Ainda mais, parceria com Paulinho da Viola gravada por Leila no injustiçado CD Na ponta da língua. De Fátima Guedes, que também releu as duas de Leila, retoma Velho ateu. Nessas horas Dona Inah comprova o ponto destacado por Paulo Cesar: seu canto não é trabalhado e nem pensado, é natural e intuitivo. Mesmo quando relê repertório já cristalizado, Dona Inah não cai no fácil caminho da imitação. Inteligente, sabe dar sua própria cor nas interpretações, dispensando as comparações.

De afinação intuitiva e divisão inteligente, Dona Inah usa a experiência a seu favor. Quando a veterana se aventura nos sambas modernos de Gudin, não tenta soar o que não é. Ao contrário, usa a escola diferente para marcar sua presença. Com fôlego de uma senhora estreante, trabalhando seu segundo CD e viajando nos sambas atuais. Sem espaço para saudosismo, sua hora de chegar é agora.

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