Pedro Moraes faz misturas criativas
Primeiro CD solo do cantor e compositor revela música de forte personalidade

Sem assinar filiação a nenhuma turma musical específica, o cantor e compositor Pedro Moraes chama atenção com Claroescuro, seu primeiro trabalho solo. Caprichada produção independente ganha vida na nova e democrática tecnologia SMD, que possibilita preço final de R$ 5,00.

Com um pé no Rio e outro espalhado pelo mundo, Pedro desenvolve linguagem bem própria. Ao mesmo tempo é e não é da turma da Lapa, não faz rock, nem ao menos mergulha nos eletrônicos. Mas junta tudo em sua própria mão. Suas ótimas composições ganham arranjos criativos que incluem instrumentos típicos de orquestra como o oboé, o fagote e até a trompa. A mistura de timbres com guitarras distorcidas e percussão de fortes cores latinas, mostra a margem de criatividade e experimentação que está no disco. Com uma roupagem pouco convencional, faz uma música que é ao mesmo tempo palatável e instigante. O resultado é música popular, mas que segue por caminhos ousados.

Em apenas oito faixas Pedro mostra uma musicalidade latente, que toma forma em diversas roupagens. Grande cantor, solta o vozeirão grave em Fina flor, momento mais lírico do disco em que é acompanhado apenas pelo piano pelo piano de Gabriel Geszti. As misturas estão presentes desde o conceito, mas se mostram ainda mais claras em momentos como a inclassificável Incomunicável, em que a voz da cantora Glória Calvente se costura a de Pedro entre encontros de flauta e guitarra no arrojado arranjo de Armando Lôbo.

O forte ar de vanguarda e experimentalismo não fecha portas. Enquanto alguns dos trabalhos mais conceituais são resultado de viagens que transformam o estúdio em um verdadeiro laboratório, a música de Pedro Moraes é feita para o palco. Basta ouvir Marcela, com força suficiente até mesmo para passear na programação das melhores rádios. Aí está um grande trunfo do disco, que se repete em outros momentos como Samblefe, criação com alma tradicional e roupagem moderna.

A carreira do artista carioca começou no México, onde foi gravado - e elogiado - pela cantora Magos Herrera. Entre viagens ao exterior cantou no grupo É com esse que eu vou, expoente da geração Lapa, e participou de projetos coletivos enquanto desenvolvia sua própria carreira. A visão do artista é ampla e permite vôos múltiplos na música.

"Não posso no meu samba fingir que não lhe quero", declara em um verso de Samblefe. Pinçada da letra a frase pode resumir o amplo interesse de Pedro na música. Pedro não é cópia, não segue o caminho de ninguém. Refinado e esperto, desenvolve linguagem própria. Cosmopolita quando sabe pescar influências e utilizar em sua música. Que tem forte cor brasileira, e garante a Pedro passaporte carimbado para despertar interesse e cantar no mundo. Claroescuro merece ser muito ouvido. O nome de Pedro Moraes, para anotar e acompanhar; com atenção.

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