Arnaldo Antunes e esse tal de Iê iê iê
Novo trabalho do compositor brinca com clichês do pop sem perder a poesia

O multimídia Arnaldo Antunes lança discos de poesia concreta, clips de palavras, conceitos cinematográficos e chicletes radiofônicos. Seu novo trabalho, porém, mergulha no universo da música pop, berço artístico do compositor. O álbum Iê iê iê abusa da estética cartoon em ótimo projeto gráfico que embrulha o conjunto de doze músicas que visita o ambiente de festinhas adolescentes com letras adultas. O disco é produção independente, lançado pelo selo Rosa Celeste com patrocínio do louvável projeto Natura Musical.

A deliciosa faixa-título, das melhores criações de toda carreira do poeta, abre o disco e flerta com populismo cultural, sonhos adolescentes, boa dose de ironia que abusa das rimas espertas. A música é uma composição do trio Tribalista que Arnaldo forma com Carlinhos Brown e Marisa Monte. Mas aqui a banalidade do hit Já sei namorar é revirado com sacadas interessantes e engraçadas, mais próxima do quilate de belas baladas como Velha infância e Já te falei. Iê iê iê, a música, é um chiclete com idéias, nobre prova de que o pop não precisa ser raso. Marisa e Carlinhos voltam a dividir com Arnaldo a composição da boa Vem cá.

É um disco de banda, trabalho coeso em que as músicas fazem parte de uma mesma linhagem, abordando o conceito pop com propriedade. A base guitarra+baixo+bateria ganha ares jovem guarda resgatando o som do velho órgão. O clima jovial segue em canções como A casa é sua, nas considerações de Envelhecer ou na deliciosa letra de Invejoso com guitarra que é uma brasa, mora?. Marca artística de Arnaldo, as letras trazem diversas imagens poéticas como na balada Longe: "E eu entre quatro paredes sem porta ou janela pro tempo passar". "No seu quarto escuro / Talvez eu seja uma luz acesa", anuncia em Luz acesa, parceria com os colegas titãs Marcelo Fromer e Sérgio Britto gravada em 1995 pelo compositor Tivas Miguel em disco de temática romântica.

No release distribuído a imprensa Arnaldo comenta a ironia de lançar um álbum chamado Iê iê iê enquanto Erasmo Carlos apresenta seu Rock and roll. "Achei uma coincidência simbolicamente interessante o fato dele, que começou sua carreira nos anos 60, dentro do que chamavam de iê iê iê, lançar esse disco na mesma época em que eu, que comecei nos 80, dentro do que chamavam de rock, esteja lançando meu Iê iê iê", analisa. Rótulos à parte, na verdade Erasmo sempre foi a metade roqueira da dupla com Roberto, enquanto Arnaldo apareceu para o público em um grupo que já trazia no batismo a falta de compromisso com qualquer movimento: eram os Titãs do Iê iê iê, da bossa new wave ao rock pesado uma das bandas que se mantém da safra da década de 80. Então, tudo certo.

Arnaldo Antunes não está aqui experimentando novas formas de arte e nem buscando a viagem do ouvinte. O álbum é pop, sim. É radiofônico, sim. É comercial, sim. Tudo embalado para o sucesso, mas com conteúdo interessante e rico, neurônios em função. Iê iê iê, o disco, é original e criativo sem soar experimental como alguns trabalhos do ex-Titã. Arnaldo acertou na escolha do conceito e fez o mais equilibrado trabalho de sua carreira solo. Para além das jovens tardes.

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