Os rios passam, as marés mudam. Novas estações e Maria Bethânia volta a lançar dois CDs simultâneos, trabalhos distintos que abordam assuntos diferentes mas se completam. Em Tua, lançado pela Biscoito Fino, são as eternas canções de amor que guiam o canto maduro de Bethânia; enquanto em Encantadeira, por seu selo Quitanta, é a mulher religiosa quem louva seus deuses-orixás. Bethânia encara os dois assuntos de forma ampla com visão aberta.
Desde que abriu mão da estrutura das companhias multinacionais para gozar a liberdade em uma gravadora que foca seu repertório na melhor música brasileira, Bethânia vem retratando seu país com total liberdade. Seus discos hoje são totalmente autorais, a cantora tem a autonomia artística sonhada por muitos anos. Nesse ambiente sua produção intensificou. "Minha fome por cantar é grande. Nasci para isso. Se eu pudesse faria dez discos de uma vez. Sou intérprete, não sei fazer outra coisa", arremata Bethânia em entrevista coletiva que reuniu jornalistas de todo o país na Gafieira Estudantina, no Rio.
Nesses novos trabalhos Bethânia segue a devoção de seu canto. "Não separo um disco do outro", explica. "Um tem canções com ritmos e letras elaboradas amorosamente. O outro festeja e louva tudo". "O amor devoto é imprescindível. Eu não quero ficar de longe de nenhuma espécie de amor, quero ficar bem envolvidinha", revela Bethânia amarrando os dois lançamentos.
Juntos os dois discos somam pouco mais de 70 minutos de duração em 22 faixas. Dessas, nada menos que sete levam assinatura do compositor baiano Roque Ferreira, a quem Roberta Sá pretende dedicar o repertório de seu próximo trabalho. Cheia de elogios para o amigo ("Roque é um dos grandes compositores do Brasil"), Bethânia conta: "Ele mandou nove músicas inéditas, fiquei louca por todas. Uma semana depois mandou outro CD com mais oito, e ainda um terceiro com mais cinco", espanta-se. Quem também abasteceu Bethânia com inéditas foi o compositor Paulo César Pinheiro. "Paulinho também é pródigo, me mandou um disco com 15 inéditas. Quase morri", brinca.
Com arranjos elaborados que dão ares de jazz, o amor de Tua é batizado pela forte composição inédita de Adriana Calcanhoto. O disco também traz parceria de Jorge Vercillo e J.Velloso em O que eu não conheço, além de Arnaldo Antunes e César Mendes com Até o fim. Flertando com outros talentos de gerações mais recentes, Bethânia divide microfone com Lenine na belíssima Saudade, parceria de Chico César e Paulinho Moska que também ganha participação do acordeon de Toninho Ferragutti. Em Encanteira, abre espaço para canções que ganhou de Vander Lee (Estrela) e Vanessa da Mata (Ê senhora).
"Sou iluminada", celebra em Feita na Bahia faixa do CD Encanteira, disco cheio de afirmações, bênçãos e axé: "Os tambores sagrados bateram pra mim". É um trabalho de ritmos mais alegres, com clima de festa. "Os santos gostam de festa", revela Bethânia na entrevista. "Deixo nessa casa minha luz", canta na faixa-título desse álbum, composta por Paulo César Pinheiro . A louvação religiosa de Bethânia ainda estende aos colegas tropicalistas quando convida Caetano Veloso e Gilberto Gil para cantar Saudade dela, composição de Roberto Menedes e Nizaldo Costa sobre Dona Edith do Prato. "Ela se foi / Fiquei sem ela".
A escolha da histórica Gafieira Estudantina não foi em vão. Bethânia quis agradecer a homenagem que recebeu da casa, que batizou seu palco com o nome da cantora. "Isso é muito grande pra mim", celebra humilde. "Sou uma menina do interior da Bahia, e no Rio de Janeiro tem uma casa com a tradição da Estudantina com o palco com o meu nome. Isso me deixa muito comovida", revela e reverencia sob olhar atento dos funcionários da casa que, orgulhosos, pararam suas funções nos escritórios para ouvir a estrela. Pouco depois Bethânia seria aplaudida no palco que leva seu nome. A cantora, que escolheu comemorar os lançamentos assistindo a uma apresentação da Orquestra Portátil de Música, subiu ao palco para cantar com eles Encanteira, repetindo a dobradinha do disco. A princípio um pouco apreensiva com a letra, que confessou não ter decorado, Bethânia se soltou com a energia de sempre. Alguma coisa acontece quando ela canta e a mágica sempre funciona.
Em tempos de revisões Maria Bethânia propõe o luxo de dois trabalhos com grande parte de músicas inéditas. Composições garimpadas ou encomendadas a colegas, que escreveram para seu canto sofisticado e nobre. O tempo de Bethânia passa alheio a regras de mercado, sua arte é soberana. Os amores e devoções de Bethânia são dos mais nobres, refletindo na grandiosidade de Tua e Encanteira.