Cantor e compositor paulistano André Caccia Bava lança seu primeiro CD, Ventobom, caprichada produção independente com conteúdo totalmente autoral. O trabalho reúne onze músicas inéditas e revela um grande artista, com talento e bom gosto. A produção aponta tendência forte para o samba, mas ainda abre espaço para outras viagens.
André fez carreira como músico. Sua guitarra já se fez presente em praias distintas, desde uma turnê com a dupla Sandy & Jr até com a sábia Elza Soares. Hoje em dia está na estrada com altos decibéis nos rocks de Lobão enquanto começa a divulgação de seu primeiro trabalho. Mas quem tentar encontrar referências a partir desse currículo vai se surpreender. O trabalho autoral de André Caccia Bava segue a linha de um samba cool, com influências variadas e mente aberta.
O samba carioca celebra Edu Krieger, grande compositor já consagrado que está começando o trabalho de seu segundo CD. Em São Paulo aparecem nomes de grande peso como André e Diogo Poças, os dois em seus primeiros trabalhos. A dupla de encontra em Vizinha de frente, samba-bossa que revela influências de Chico Buarque. Clássico instantâneo que também faz parte do repertório do parceiro. André também assina autoria com Lupa Mabuze no irresistível Samba torto que abre o disco. Ainda encontra Silvio Caccia Bava em Sem tempero não dá que fecha o disco com brisas nordestinas. Mas a maior parte traz apenas assinatura de André, sozinho em seis das onze faixas.
O álbum é especialmente sedutor em sua primeira metade, onde estão os sambas. "Aonde o samba vai eu vou / Pra ter samba tem que ter amor", grifa na letra de A voz do morro, que ainda deixa claro suas influências. "Eu bato continência pra Nelson Sargento / Sou do batalhão dos Originais do Samba", declara na música que serve como cartão de visitas. Quem mergulhar no disco vai se encantar com sambas como Céu inteiro, parceria com Fábio Góes e Alexandre Grooves. A bossa jazz Temporal cai como luva e cresce em sua voz segura.
Mesmo quando ousa fugir do samba tradicional o resultado é bom, como no rock funkeado Intocáveis, que destaca a cítara de Tuco Marcondes. O arrasta-pé dá o clima na festiva Santo Antônio, quadrilha moderna composta com Renato Yedid e Fefê Gurman. Na sequência engata ritmos latinos em Tá querendo e põe o pé no reggae jamaicano em Um.
Ventobom é dessas surpresas que arrebatam logo na primeira audição. O disco revela um artista de personalidade e grande talento. A obra de André é fonte fértil para cantores em busca de repertório, mas também mostra que o artista tem força para seguir carreira solo.