Gilberto Gil futurista em 1969
Álbum lançado antes do exílio ganha nova edição

Ainda nas comemorações dos 70 anos que Gilberto Gil festejou cantando em 2012, volta ao mercado em versão bem cuidada o álbum lançado originalmente em 1969. Com nova masterização no lendário estúdio Abbey Road, o disco volta em edição CD e LP pela Universal Music, que também recentemente reeditou o clássico Expresso 2222 *.

Terceiro disco de estúdio do compositor, o álbum tem forte tom de rock experimental, com arranjos do maestro Rogério Duprat. A banda destaca a guitarra característica do lendário Lanny Gordin trazendo ainda nomes como Wilson das Neves (bateria), Chiquinho de Moraes (piano e órgão) e Sérgio Barroso (baixo elétrico).

Tropicalista, o disco tem olhos para o futuro com músicas como a visionária Cérebro eletrônico (em que a banda se esbalda em uma carta de intenções do que virá a seguir), Futurível e Vitrines. As três foram compostas por Gil durante a prisão, com um violão emprestado por um sargento. No livro Todas as letras, organizado por Carlos Rennó em 1996, Gil recorda: "O fato de eu ter sido violentado na base da minha condição existencial - meu corpo - e me ver privado da liberdade de ação e do movimento, do domínio pleno de espaço-tempo, de vontade e de arbítrio, talvez tenha me levado a sonhar com substitutivos e a, inconscientemente, pensar nas extensões mentais e físicas do homem, as suas criações mecânicas; nos comandos teleacionáveis que aumentam sua mobilidade e capacidade de agir e criar", avalia.

O tema segue em Objeto semi-identificado, parceria de Gil com Rogério Duarte e Rogério Duprat que trava uma conversa cheia de mensagens, e na música de Caetano Veloso, A voz do vivo. Ainda viaja mais longe na parceria de Rita Lee e Tom Zé em 2001, que no festival da Record tinha sido defendida pelos Mutantes com participação de Gil na sanfona. Rezando na liberdade musical proposta pelo movimento que havia ajudado a criar dois anos antes, puxa 17 légua e meia, de Humberto Teixeira e Carlos Barroso.

Mas o grande clássico do álbum é, sem dúvida, o samba Aquele abraço, lançado na época também em compacto e ainda hoje tema obrigatório no repertório do compositor. A música virou hino contra a ditadura militar representando o período, como uma carta de despedida de Gil.

A base do disco, voz e violão, foi gravada entre abril e maio em Salvador. Logo depois o cantor seguiria para o exílio deixando para Duprat a tarefa de completar as gravações com a banda. O LP seria lançado em agosto do mesmo ano.

A história do álbum se mistura profundamente com a biografia do compositor e com o período político que o país vivia. A parceria de Gil com Duprat fica na história como um grito pop que resiste ao tempo e mantém seu interesse quatro décadas depois, especialmente com o recente resgate da história do movimento tropicalista. Tem muito disso aí, condensado em 40 minutos de música.


  • *  leia aqui: Álbum Expresso 2222 ganha relançamento caprichado que recupera arte original

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