Brasil para inglês ver

por Beto Feitosa

O tio Sam conheceu a nossa batucada, gostou e levou. Enquanto no Brasil as músicas criadas pelo departamento de marketing das gravadoras elegem os ídolos instantâneos das paradas de sucesso, países da Ásia e Europa consomem e produzem nossos nobres artistas. Mas será que eles sabem que esses músicos são pouco consumidos no seu país de origem?

Enquanto Joyce lança no Brasil o ótimo Bossa duets, o mercado japonês já conhece seu novo trabalho Just A Little Bit Crazy. Gafieira moderna chegou aqui com um ano de atraso em relação a outros países. Mas trabalhos como Hard bossa e Sem você, delicioso voz e violão com Toninho Horta, só chegaram ao mercado brasileiro via importadoras.

Já Ithamara Koorax tem todos os seus CDs editados no Brasil. Mas também, como Joyce, sempre depois dos lançamentos no exterior. O mais recente, Love dance, se demorou mais, veio com um valioso brinde: Absolute Lee, música inédita de Tom Jobim.

O mesmo problema acontece com artistas consagrados como Marcos Valle e Trio Mocotó. Outros artistas nem chegam a conseguir distribuir seus trabalhos no Brasil. Muitos deles sobrevivem se apresentando em festivais por toda a Europa.

Mas será que esse problema tem uma solução fácil? O brasileiro ainda tem como entender e apreciar a sua música? Ou será que existe um poço sem fundo separando os artistas do grande público?

A música consumida hoje nas rádios populares é mais descartável do que guardanapo de papel, e os próprios meios rejeitam depois de pouco tempo. Nem para programa de flash back servem. A mesma indústria que alimenta esse comportamento já começa a sofrer suas conseqüências. Músicas esquecidas e jogadas no lixo não rendem coletâneas, que são minas de ouro para as gravadoras.

O problema também pode vir de berço. Se nos anos 80 as crianças ouviam Vinicius de Moraes e Toquinho em especias como Arca de Noé e A Casa de brinquedos, hoje em dia a petizada só quer saber de usar o short igual da Kelly Key e dançar igual a nova loira do tchan. Com total incentivo dos pais.

O fenômeno de vendas de Maria Rita pode ajudar a reverter esse processo. A mídia e o público estão de olhos e ouvidos atentos para uma boa linhagem que há muito não encontrava os grandes números e nem as platéias lotadas das maiores casas de shows. A mesma mídia que clonou pagodes mauriçolas e grupos de bunda music, hoje corre para encontrar várias cópias de Maria Rita.

Que encontrem e abram alas para artistas de talento que estão por aí, fazendo ótimas obras à revelia da grande mídia. Se nem assim resolver, a solução é seguir o verso de Joyce que diz "vou para os Estados Unidos ouvir o meu samba/Brasil, até jazz".

CD Joyce - Bossa duets (coletânea)
CD Ithamara Koorax - Love dance, the ballad album
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