Verão de 1982, final de janeiro. A notícia da morte de Elis Regina pegou todo o país de surpresa. Vinte e dois anos depois ela continua sendo referência de qualidade para todo mundo que faz, ouve e fala sobre música no Brasil. O que a gaúcha tinha?
Elis não se acomodava e nem ao menos achava que seu público podia engolir qualquer coisa. Por isso sempre foi respeitada. O bom gosto na escolha do repertório e a inteligente interpretação fizeram de Elis o ícone máximo da MPB moderna.
Na hora de pesquisar músicas para um disco, Elis tinha sensibilidade para ouvir os novos compositores. Os já consagrados se esforçavam e davam o melhor de si; não bastava uma assinatura de peso para entrar no repertório dela. Os discos tinham qualidade e coerência, tanto que hoje em dia ainda são vendidos e celebrados como obras-primas.
O padrão de qualidade Elis Regina também se espalhava pelos colegas. Nos anos 70 a música brasileira viveu uma saudável disputa. Curiosamente, a cantora que mais poderia ameaçar Elis em bom gosto de escolha de repertório e arranjos era Nara Leão, que, ao contrário de Elis, tinha voz pequena e sussurrada. Mas fazia barulho. As outras também não se acomodavam, buscavam sempre novidades. Tanto que a melhor produção da dita MPB está justamente nesse período.
Se hoje alguém tivesse o espírito de descobrir novos talentos e gravar o que tem de melhor, a música não estaria vivendo esse marasmo. Compositores talentosos tem aos montes, por que será que eles não conseguem chegar ao público? Falta quem aposte neles. Esse deserto de novidades acabou acostumando o público a só querer ouvir os sucessos, fechando ainda mais o repertório a um medíocre top 10. Fica tudo com cara de reprise da Sessão da Tarde.
O surgimento de Maria Rita traz esperança de que a situação mude. Com o mesmo propósito e bom faro da mãe, ela ainda está descobrindo a música brasileira. Fica a esperança de que em breve encontre seu caminho e sua turma, já que talento não falta. Fica a certeza de que o mero fato do Brasil ter deixado de lado a discussão sobre o namoro da Kelly Key com o Latino para discutir as influências de Maria Rita já valeu o ano musical de 2003.
Dizer que se Elis ainda estivesse por aqui tudo seria diferente é especulação barata. Ela não viveu a enxurrada de teclados e sintetizadores dos anos 80; também não soube nem ao menos o que é um CD. Usar o discurso mofado de que antigamente a música era melhor também parece saudosismo sem fundamento.
Mas lamentar a falta de espaço para novos e talentosos artistas é importante para tentar abrir os olhos da indústria que, se continuar apostando em artistas de verão, não vai ter história para contar. E nem catálogo para vender.