Itamar Assumpção
(13/9/1949 - 12/6/2003)

por Mariana Tavares

"Nego Dito". É assim que é conhecido um dos maiores e mais criativos expoentes da chamada "vanguarda paulista", batizado também de "maldito" pela imprensa nacional. Sobre ele, disse Tom Zé: "A prova de sua força artística é que quanto mais quero me lembrar das conversas que tivemos, é o cantor, o intérprete, são as canções, que se superpõem aos nossos diálogos. O artista toma o lugar da pessoa física".

Foi com a música Nego dito que Francisco José Itamar Assumpção, ou apenas Itamar Assumpção, lançou-se no Festival Feira da Vila, no bairro paulistano da Vila Madalena, em 1979, acompanhado pela banda Isca de Polícia. No mesmo ano participou do festival da extinta TV Tupi junto com Arrigo Barnabé e sua banda, defendendo a música Sabor de veneno, que lhe rendeu o prêmio de melhor arranjo do evento. Dois anos mais tarde, a música Luzia daria a ele outro prêmio, dessa vez no Festival de Campinas. Itamar teve um início premiado dentro da cena paulistana.

Itamar Assumpção chegou em São Paulo em 1973, aos 24 anos. Nascido em Tietê, interior do estado, mudou-se com a família para Arapongas, no Paraná, aos 12 anos. Iniciou faculdade de Contabilidade, curso que abandonou para estudar teatro e fazer shows em Londrina, onde conheceu Arrigo. Um fato mudaria o rumo de sua carreira, como conta Alzira Espíndola, uma de suas maiores amigas e parceiras musicais: "Uma noite, Itamar saiu do teatro mais tarde e perdeu o ônibus. Levava um gravador na mão, e ficou andando pelas ruas. A polícia passou e resolveu levá-lo, soltando ele no meio dos bandidões. Os caras começaram a perguntar o que ele queria fazer da vida, ele respondeu que queria ser músico, e então eles deram um violão para ele tocar. Itamar ficou a noite inteira tocando, e de tão elogiado que foi, no dia seguinte saiu do teatro e foi se dedicar à música", lembra.

Itamar decidiu então mudar para São Paulo. Em 1978, formou sua primeira banda, denominada Mão de Pilão, que duraria apenas um ano. Dela, fez parte Alzira Espíndola, artista cuja primeiro show e posterior álbum Amme seriam produzidos por Itamar anos depois. Entre 1988, ano em que se reencontraram, e 1992, quando o álbum foi lançado, Alzira passou a acompanhar Itamar em seus shows, viajando com ele para a Europa, onde seu trabalho é muito respeitado.

Em 1979, Assumpção formou a Isca de Polícia, da qual participou Luiz Chagas, que falou sobre o trabalho na banda: "Todos falam do prazer de tocar com Itamar. Todos reclamam de dinheiro, que sempre foi pouco, do mau humor do cara, mas invariavelmente citam o período que passaram com ele como o melhor de suas carreiras", reconhece.

Depois do sucesso no Festival Feira da Vila, Itamar e sua banda passaram a fazer shows no teatro Lira Paulistana, local que tornaria-se sede da música alternativa da cidade na virada dos anos 70 para os 80, abrigando artistas que tinham em comum propostas criativas, que não recebiam a atenção dos grandes canais de divulgação. Os artistas do Lira ficaram conhecidos como a "vanguarda paulista", e o teatro tornou-se o carro-chefe da produção fonográfica independente.

O lançamento de estréia do selo próprio da Lira foi com o primeiro álbum de Itamar, intitulado Beleléu, leléu, eu, de 1980. Com ele, Assumpção foi premiado como cantor revelação pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA). Em 1983, lançou Às próprias custas S.A., seguido por Sampa midnight, de 1986, todos esses três relançados em CD pela Baratos Afins, em 1994.

Em 1988, Itamar gravou seu primeiro e único álbum lançado por uma grande gravadora: o irônico Intercontinental! Quem diria! Era só o que me faltava..., pela Continental. Itamar nunca cogitou render sua arte ao mercado. Sua música era seu patrimônio, e sua carreira seria comandada apenas por ele, postura essa que lhe rendeu o rótulo de "artista maldito". Já na vida pessoal, porém, era tranqüilo, simples e humilde, apaixonado pela família.

Para acompanhá-lo na gravação da série Bicho de sete cabeças, lançado em forma de três LPs e 2 CDs em 1992, Itamar formou uma nova banda, Orquídeas do Brasil, composta por oito mulheres. No ano seguinte, lançou Ataulfo Alves por Itamar Assumpção - Pra sempre agora, com o qual ganhou novamente o prêmio da APCA, dessa vez como melhor disco do ano, dando à obra de Ataulfo um tratamento único. Itamar era um artista obcecado pelo novo e pela não-repetição, sempre insatisfeito e preocupado em se aprimorar, sem deixar de lado sua enorme admiração pela música popular brasileira.

Seu último álbum Pretobrás, lançado em 1998, fazia parte de um projeto inicial que previa a gravação de uma segunda trilogia, do qual esse seria o primeiro. O segundo, gravado em parceria com o percussionista Naná Vasconcelos, recebeu o título Naná Vasconcelos e Itamar Assumpção - Isso Vai Dar Repercussão, demonstrando o desejo do artista de atingir um público maior. Apesar de desvincular-se das principais mídias de divulgação, o que tornava restrita a circulação de sua obra, Itamar sempre reivindicou o título de artista popular.

Em 2000, Itamar descobriu um câncer no intestino. Ainda em recuperação das cirurgias e sob tratamento quimioterápico, continuou fazendo shows. Não gostava de comentar o assunto. Quando questionado, sempre dizia estar bem. No dia 12 de junho de 2003, Itamar faleceu na cidade de São Paulo, vítima de complicações causadas pelo tumor, aos 53 anos.

Segundo Alzira, o artista deixou um vasto material musical inédito, além de dois livros infantis e outros projetos. Não se sabe, porém, qual será o destino desse material. Nego Dito fez uma obra única, na qual muitos artistas se inspiraram. Numa entrevista ao projeto "Vozes ao Vivo", Itamar foi questionado sobre sua religião. Curta, sua resposta foi significativa: "Minha religião? É a música".


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