"O frevo é uma música única e diferente de todas, animada e com uma magia especial: a de passar felicidade".
Spok
Em fevereiro de 2006, o instrumentista, compositor, bailarino e pesquisador pernambucano Antonio Nóbrega, discípulo de Ariano Suassuna e ex-integrante do Movimento Armorial, reuniu um grande elenco de musicistas, cantores e dançarinos para dar partida nas comemorações pelo Centenário do Frevo, que ocorreria em verdade apenas no ano seguinte. Mas, como ele mesmo disse, por ser um intenso caso de amor, "se mais eu não tivesse o que fazer na vida, muito me bastaria cantar, dançar e tocar frevos... o ano inteiro" colocou todo o seu público a brincar a partir de então. Assim, aquela antiga fábrica transformada em teatro pelo SESC no bairro da Pompéia, em Sampa, foi metamorfoseada por cerca de três horas em ruas da capital de Pernambuco e sua vizinha Olinda. Homens, mulheres, jovens, crianças e idosos saíram para cantar e pular como se fosse reinado de Momo. Uma mistura de nostalgia com vigor de novidade, em meio ao colorido das sombrinhas, passistas e o brilho dos instrumentos da sensacional orquestra liderada pelo inovador Inaldo 'Spok' Albuquerque mais Gilberto Pontes, primos inseparáveis e saxofonistas. Como dizia mestre Capiba: "frevo é contagiante, induz a participação, é festa". Bela síntese para um gênero, de fato, encantador. Ânimo dionisíaco, fruto da terra do maracatu e da buchada, conforme Gilberto Freyre, venerável tríade castiça.
Um pouco de reminiscências e opiniões. De acordo com o brincante Antonio Nóbrega o frevo instrumental vem de influências das fanfarras e bandas militares. A dança, por sua vez, tem origens nos capoeiras, em suas pernadas, rabos de arraia, gingados que acabaram virando passos, movimentos coreográficos codificados em expressão de dança popular. A palavra frevo parece ter saído pela primeira vez na imprensa no Jornal Pequeno de Recife, em 09/Fevereiro de 1907, em texto de Osvaldo da Silva Almeida, vulgo Paula Judeu.
Por sua vez, o etnólogo e folclorista Edison Carneiro, alega que essa distinção entre música e dança é fundamental. Desta forma, em Pernambuco, o 'frevo-dança' não é conhecido por tal alcunha e sim como 'passo'. Assim, ouve-se 'vamos ver o passo' ou 'vamos dançar o passo'. O mesmo estudioso explica que no início do século XX a habanera e o maxixe foram ingredientes para a constituição do frevo como forma musical. E este não pode ser compreendido como expressão folclórica porque tem uma grande complexidade técnica e apresenta na execução uma banda, com instrumentos caros como os metais. "O povo não tem dinheiro para consumir isso", diz Carneiro. E, naqueles primórdios, a música era tocada pelos cordões carnavalescos de Recife como os Lenhadores e os Pás Douradas, adversários nas apresentações.
Exatamente porque eram rivais, muitas vezes seus encontros pelas ruas acabavam em pancadaria. Então, resolveram trazer malandros capoeiristas para proteger as pessoas que desfilavam no cordão. Eles, assim, vinham à frente do grupo, fazendo pose, encarando os demais, jogando capoeira e, desta maneira, iam também criando acrobacias para se mostrarem valentes e hábeis. Estavam surgindo os passos que acompanhariam o desfile. Com o passar do tempo as brigas sossegaram e os capoeiristas foram aposentados em sua função de 'segurança', porém tinham possibilitado a criação de nova forma de dança que os cordões absorveram. Incluem-se ai também as sombrinhas que, além de dar equilíbrio aos passistas, ajudavam bastante nas constantes brigas. O cordão passou a se denominar 'passo' e nele a multidão pula até cair esgotada. E, importante: nos músicos ninguém encosta. Segue o conjunto em roupas limpas, brancas, engomadas. Mesmo se houver confusão ao redor. Um respeito total cuja imunidade era - e é - concedida pelo povo, de acordo com Carneiro. Coisa reverencial para virtuoses ou quase lá.
A propósito dessa qualidade musical, certa feita o maestro Guerra Peixe disse ser o frevo a mais importante expressão musical popular porque é 'a única música popular que não admite o compositor de orelha, não basta apenas saber solfejar para compor um frevo'. Tem que entender de orquestração, ou seja, ser músico de verdade, completo, como foram os grandes Capiba e Nelson Ferreira, aponta o regente. O frevo é no seu ver, provavelmente a única música no mundo que já nasce orquestrada. Nem o jazz é assim, pois é baseado no improviso. O frevo surge escrito na partitura. E originou-se nas fanfarras, exclusivamente nos metais. Depois é que vieram as palhetas: saxes e clarinetes, ensina. Contudo, é uma música dos trombones, acredita ele. E que aparece ainda no final do século XIX desenvolvendo posteriormente alguns tipos diferentes de manifestações, casos do Frevo-Ventania, Frevo-Coqueiro e Frevo-Abafo. O primeiro é o mais elaborado, com floreios e tessituras; o segundo é o tocado quando duas bandas se encontram e tentam sobressair uma a outra, abusando das notas agudas; e o terceiro, o Abafo, parecido com o anterior, o Coqueiro, se caracteriza por notas longas e agudas. É tudo frevo de rua, música instrumental, argumenta Guerra Peixe. Coisa fina de alma popular.
Dos estratos populares menos favorecidos da sociedade nasceu o garoto Inaldo Cavalcanti Albuquerque, vulgo Spok, filho de dona Nair e sr. Nilo. Desde pequeno demonstrava interesse musical e isto foi instigado por familiares, como seu tio Ginaldo e também o primo Gilberto Pontes. Ouvia e chamava-lhe a atenção os lps de Claudionor Germano e Expedito Baracho entre outros tocados pelo pai. Começou seus estudos como aluno do Centro de Criatividade Musical do Recife. Foi em 1984 que teve seu primeiro contato com o saxofone. No ano seguinte já participava dos folguedos carnavalescos tirando seus primeiros frevos. Durante 1986, caminhando por uma via de Olinda, conta que ouviu uma versão do clássico "Vassourinhas" interpretada pela famosa orquestra de Nélson Ferreira de onde se destacava o solo do saxofonista Felinho (1896/1980), cheio de desenhos gingados. Aquilo foi um choque, uma tremenda emoção que lhe inspirou, reafirmando a necessidade de aprender mais para criar e desenvolver novas possibilidades dentro do gênero. Passou a integrar bandas musicais, o que ele reconhece ser 'a verdadeira escola', e foi membro inclusive da Saboeira, de Goiana, por onde esteve, por exemplo, o aclamado maestro Duda, outra de suas influências. Em 1988 já era profissional. E continuava um curioso aprendiz das linguagens sonoras.
Seu talento e inventividade chamaram a atenção do atento Antonio Nóbrega. "Essa coisa da improvisação aprendi com Edson Rodrigues, para mim um dos melhores músicos do país. Com ele comecei a gravar frevos, jingles, a ganhar dinheiro. Mas foi viajando com Nóbrega, em festivais no exterior, que comecei a pensar em fazer uma coisa diferente. Eu via aqueles músicos improvisando e me perguntava por que não se poderia fazer o mesmo com o frevo, que eu tocava tão tradicional, seguindo a partitura, enquanto aqueles músicos faziam jazz". Durante os anos 1990 Nóbrega passou a produzir espetáculos e gravações com pesquisas de manifestações populares, especialmente pernambucanas, recebendo muitos aplausos dentro e fora do país. "Na Pancada do Ganzá", "Madeira que Cupim não Rói" e "Pernambuco Falando para o Mundo" são três de seus trabalhos. No terceiro citado há integrantes da Banda Pernambucana, com a qual Nóbrega se apresentava então em suas incursões no Nordeste. Entre eles o sax de Spok. Com vários desses músicos, no ano de 1996, Nóbrega bolou o bloco Na Pancada do Ganzá para enfrentar a 'invasão' da axé-music no carnaval recifense. No entanto, aquela apresentação foi frustrada devido o desaparecimento súbito de Chico Science, que integrava o projeto com sua banda Nação-Zumbi. De qualquer modo, tais iniciativas favoráveis à autenticidade do povo, à arte e contra o banal comercialismo deixaram sementes na cabeça inquieta de Spok e de seu primo e companheiro Gilberto.
Empolgados com essas idéias em janeiro de 2001 surgiu no Recife a Spok Frevo Orquestra arregimentando 18 integrantes, feito uma big-band, com jovens cheios de vontade para criar novidades harmônicas e melódicas no clássico gênero. Respeitando o passado e apontando propostas de futuro. Para começar, na Spok Frevo Orquestra todos os músicos são talentosos improvisadores. Em dois anos de brilho já se apresentavam em festival na cidade de Nantes, França, além de várias localidades brasileiras, incluindo clubes de jazz. Fala o saxofonista: "a gente faz frevo-de-rua de palco. Alguns falam em frevo-de-rua jazz. O que eu sei é que quase ninguém dança quando tocamos, preferem ouvir. Já aconteceu de a orquestra estar tocando, pessoas levantarem para dançar e as outras reclamarem". E acrescenta: "Quando a gente vai assistir a uma exibição de frevo na Casa da Cultura, por exemplo, o que se vê são os passistas à frente da orquestra, da música. Com a minha orquestra, a música é que fica na frente de tudo o mais". O que ele não conta aqui é que a assistência, mesmo sentada, não deixa de acompanhar com pés e mãos a tremenda sonzeira que a moçada no palco realiza com extrema competência.
Em 2004 acontecia o lançamento do cd "Passo de Anjo" que inclui nele releituras com atualizações e também composições próprias. O trabalho, que teve apoio da Prefeitura do Recife, traz em seu encarte que é frevo de rua sim, com muita liberdade de expressão. Porém, "sem nunca perdermos nossa alma", avisam, saudando a memória de Felinho que ousou fugir do pentagrama, liberando o frevo à improvisação, mesmo sofrendo críticas dos puristas em sua época. "A gente é daqui, pernambucano, conseguimos a liberdade no frevo sem perder a essência". E mais: maestro Clóvis Pereira, que integra o trabalho, também não foge das polêmicas e assegura que o frevo vem da polca e não dos dobrados, segundo outros especialistas.
Controvérsias à parte, arranjadores como Fletcher Henderson, Edgard Simpson e Billy Strayhorn, que colaboraram com célebres líderes como Benny Goodman e Duke Ellington na 'Era de Ouro das Big-Bands', certamente ficariam estupefatos com a qualidade do conjunto nacional.
Desde o momento em que o raio laser começa a ler o sulco do disquinho prateado e passamos a sentir o pulsar da percussão do 1º tema até o acorde final da 11ª composição percebemos que aqueles 37 minutos e 24 segundos de viagem são muito breves. Porque, como diz sabiamente o velho ditado, 'o que é bom, dura pouco'. E é inevitável repetir a dose. Tudo muito bem feito: a dinâmica, os ataques, as evoluções precisas dos naipes - que me lembra sempre uma revoada alegre de tagarelas passarinhos -, as roupagens novas para composições de Levino Ferreira e Sivuca, anteriormente gravadas pelo maestro Duda, aliás, avô da mulher de Spok e incentivador da orquestra. Enfim, está tudo presente, do tradicional ao moderno frevo. Formidável estréia em forma de registro fonográfico. Uma delícia.
Além das atividades com a orquestra de frevo dentro e fora do Brasil, Spok também atua na Banda Sinfônica do Recife, como instrumentista e arranjador, bem como possui em seu curriculum participações em apresentações com grandes nomes da MPB como Alceu Valença, Fagner, Naná Vasconcellos e Elba Ramalho, entre outros. Um rol obviamente em franco crescimento. Recentemente foi convidado a encerrar as festividades dos jogos Pan-Americanos no Rio de Janeiro. Todavia, todo esse sucesso não o acomoda. Há muitas intenções experimentais com vistas a novos caminhos para o frevo. E mais que isso, deseja legar ao amanhã, aos estudantes, método para o ensino do gênero. Cuidado e propagação da cultura de sua gente. E o que é fundamental: unindo arte e educação. Grande Spok.
O fato é que o frevo, das ruas ou dos salões, instrumental, dançado ou cantado é natural de Pernambuco e tem fãs pelos quatro cantos do Brasil. Um patrimônio histórico e agora centenário de nossa gente. A proliferação de bons músicos - como demonstra a turma de Spok - e o numero de foliões que aumenta em cada ano naquela região do nordeste prova que o vaticínio de Capiba, quando comemorou seu octogésimo aniversário há 23 anos atrás, não tem erro: o frevo é eterno e permanecerá cativando e arrastando multidões por onde passar fervendo, seja em Recife, Olinda, Campina Grande, Igarassú ou na Paulicéia, na praça ou nos teatros, na orla ou nos calçadões. "Estou aqui para ver/ A juventude dourada/ Nessa alegria de louco/ Entrando na madrugada." Viva o Frevo, por novos séculos afora!