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Domesticação de cães pode ter sido moldada por rituais de sacrifício

Antigo sítio arqueológico no Ártico sugere uma relação complexa entre humanos e caninos

Pxhere

No Ártico siberiano, o rio Ob flui vagarosamente através de trechos vastos e frios da tundra. Na cidade de Salekhard, na Rússia, onde ele se une com o rio Polui, encontram-se vestígios de um antigo local destinado a rituais. Com vista para as planícies de inundação, esse local é conhecido como Ust`-Polui. Acredita-se que remonta a 260 a.C. e foi ocupado até 140 d.C. O sítio há muito tempo fascina os arqueólogos devido ao grande número e diversidade de restos ósseos e de artefatos preservados pelo permafrost,  que contam a história de um espaço com especial importância para as antigas comunidades siberianas.

Uma equipe de pesquisadores se voltou para um aspecto pouco estudado do local: o número incomum de restos caninos. Esqueletos completos ou partes de pelo menos 128 cães foram identificados desde que o sítio foi escavado pela primeira vez em 1935. “Em nenhum outro lugar do Ártico encontramos tantos restos de cães concentrados em um mesmo local”, diz Robert Losey, um antropólogo da Universidade de Alberta no Canadá. "É intrigante o suficiente para querermos rever o relacionamento entre esses animais e os antigos habitantes de Ust-Polui."

Losey e seus colegas queriam descobrir mais sobre os papéis que esses animais desempenhavam nas comunidades que habitavam o local. Seu estudo, publicado na edição de setembro da revista Journal of Anthropological Archaeology, mostra como a domesticação de nossos companheiros de quatro patas foi direcionada pelas interações com seres humanos e suas práticas culturais.

Nas últimas décadas, a pesquisa sobre domesticação de cães gerou intenso interesse na comunidade científica. Os especialistas debatem tanto a definição de “domesticação”, quanto as origens precisas do cão doméstico. “Desentendimentos surgiram porque é difícil distinguir um cachorro de um lobo se você tem apenas ossos. Identificar quando alguns lobos evoluíram para se tornar cães, e qual o papel que os humanos podem ter desempenhado nessa evolução, não é uma tarefa fácil”, diz o paleoantropólogo Pat Shipman, ex-professor da Universidade de Penn State, que não esteve envolvido no estudo.

Estudos recentes tentaram encontrar evidências da domesticação, identificando mudanças nos genes e morfologias esqueléticas, ou estruturas ósseas, de animais antigos. Essas análises ajudaram a ter uma ideia mais clara de quando e onde os cães emergiram há mais de 15.000 anos. Mas os pesquisadores raramente analisaram como e por que cães e humanos interagiam. Diversas práticas culturais podem ter moldado essas relações, mas até agora, elas raramente foram investigadas.

Entender como os humanos e caninos conviviam é importante porque práticas humanas específicas e a cooperação mútua entre as espécies podem explicar mudanças nos aspectos físico e comportamental dos cães. “Ao documentar as interações entre um grupo de cães e um grupo de humanos em Ust`-Polui, muito depois do primeiro encontro entre as espécies, quisemos mostrar que há mais na domesticação do que nas mudanças corporais”, diz Losey.

Para obter informações sobre as interações entre humanos e cães, os pesquisadores recriam as histórias de vida de alguns dos animais que viveram em Ust`-Polui há cerca de 2.000 anos, procurando evidências de como eles foram tratados e de quais atividades participavam. Os cientistas também analisaram o formato dos ossos e do crânio para descobrir mais sobre as estruturas corporais, a saúde e as idades dos animais.

Nos quatro séculos em que Ust`-Polui foi ocupada, centenas de cães podem ter passado pelo sítio, de acordo com a equipe de pesquisa. Havia muitos ossos fragmentados, descobriram Losey e seus colegas, que pertenciam a cães jovens, alguns dos restos tinham marcas de cortes. Os pesquisadores sugerem que os humanos da Ust`-Polui mataram e provavelmente comeram esses animais.

Parece que as comunidades antigas de Ust`-Polui deram atenção especial aos crânios dos cães, que são incomumente abundantes no local, de acordo com a equipe. Esses crânios, assim como algumas das mandíbulas dos animais, estavam presos a paus ou correias que eram usados como ornamentos, e acredita-se que alguns tenham sido utilizados por pessoas. Os cães aos quais  esses restos pertenciam podem ter sido sacrificados ritualmente. Além disso, alguns dos animais foram enterrados inteiros após o que parece ter sido uma morte natural.

Losey e seus colegas analisaram previamente a composição química dos ossos para tentar determinar as dietas dos cães enterrados no local. Uma parte, eles descobriram, consumia peixes de rios próximos, sugerindo que eles eram possivelmente dependentes de humanos para algumas de suas necessidades básicas. Os cientistas também encontraram restos de trenós de madeira que provavelmente eram puxados pelos animais. Os trenós, acreditam os pesquisadores, podem ter afetado os corpos dos animais, os transformado ao longo do tempo. A longo prazo, a estrutura óssea dos cães pode ter se adaptado para suportar melhor as tensões que tinham ao puxar um trenó.

Escolher quais animais vivem, trabalham e se reproduzem é uma forma de reprodução seletiva e uma característica importante da domesticação, argumentam os autores do estudo. Assim, essas ações humanas moldaram as características físicas e os traços de personalidade dos animais que viviam em Ust-Polui.

O fato de alguns cães terem sido enterrados ritualmente, enquanto outros foram massacrados, sugere um conjunto complexo de crenças sobre o lugar dos cães na sociedade. Os caninos não eram vistos como um grupo homogêneo. Os pesquisadores não sabem por que recebiam tratamento diferente entre si, mas essas novas descobertas sugerem que os humanos só construíram um relacionamento duradouro com os animais que consideravam valiosos para a comunidade, moldando-os às suas necessidades e especificidades culturais. “Essas práticas diversas - intencionais ou não - impulsionaram a evolução e a domesticação dos cães nessa região”, diz Angela Perri, arqueóloga da Universidade de Durham, no Reino Unido, que não esteve envolvida no estudo.

Greger Larson, um biólogo evolucionário da Universidade de Oxford, no Reino Unido, que não participou da pesquisa, elogia os métodos usados no novo estudo. "É importante começarmos a analisar mais de uma linha de evidência", diz ele. "Analisar o DNA antigo por conta própria é uma ótima maneira de descobrirmos sobre a ancestralidade de um cão, mas realmente não nos diz nada sobre a relação que o animal possuía com os humanos."

Entender essa relação é a chave para aprender mais sobre como a domesticação aconteceu, tanto na Sibéria do Ártico quanto em outras partes do mundo. “Mudanças genéticas e corporais não são uma causa, mas uma consequência da domesticação”, diz Losey. “Queremos repensar a domesticação como um processo contínuo que pode ser estudado em qualquer lugar do mundo onde as pessoas vivam com animais domesticados e as integrem em sua cultura.”

Lea Surugue

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