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Experimento de crianças brasileiras será lançado para a Estação Espacial

Brasil é primeiro país fora da América do Norte a participar de projeto que estimula ciência entre os jovens

Colégio Dante Alighieri
Da esquerda para a direita: Otto Gerbaka (Dante), Guilherme Funck (Dante), Laura D`Amaro (Dante), Sofia de Ávila (Projeto Âncora) e Natan Cardoso (Perimetral)
No fim deste mês, a Estação Espacial Internacional irá receber um experimento totalmente concebido por brasileiros — mas, ao invés de cientistas profissionais, quem encabeça esta pesquisa são alunos da sétima série do ensino fundamental de escolas públicas e particulares. É o projeto Garatéa ISS — ISS, neste caso, é uma referência a International Space Station, o nome em inglês da Estação.  

Chefiando o projeto está o engenheiro espacial Lucas Fonseca. Ele é o diretor da Missão Garatéa - L, uma iniciativa que tem o objetivo de enviar um satélite com experimentos para órbita lunar. Fonseca conta que ao apresentar a missão Garatéa - L numa edição do festival tecnológico Campus Party, tomou conhecimento do programa Students Spaceflight Experiments Program (Programa de Experimentos Espaciais Estudantis, em uma tradução livre). O programa acontece há 14 anos em várias escolas de comunidades norte-americanas.

A partir de uma etapa de aulas e instruções, os alunos idealizam experimentos que acreditam que podem ser realizados no Espaço e gerar novos conhecimentos para diferentes áreas. Os projetos são submetidos a uma rigorosa seleção. Os aprovados são lançados para a ISS, manipulados por astronautas e, após um ano, voltam à Terra para serem analisados pelos jovens que os conceberam.  “Quando soube deste programa, percebi que poderia ser uma maneira totalmente nova para incentivar a ciência em nosso país”, diz Fonseca.

O engenheiro entrou em contato com o programa norte-americano para trazê-lo para o Brasil. O acordo previa a participação de pelo menos 300 estudantes. Os adultos poderiam ajudar a condicionar os experimentos, mas não deveriam influenciar na concepção científica deles. A este arranjo, Fonseca acrescentou outra condicionante: a mescla de escolas públicas e particulares. Isto foi conseguido a partir de uma parceria entre o Colégio Dante Alighieri, de  São Paulo, a comunidade de Paraisópolis, uma das maiores de São Paulo, e a ONG “Projeto Âncora”, que atua no bairro de Cotia.

A partir desta parceria, cerca de 350 alunos se reuniram no Dante Alighieri um dia por semana, ao longo de 9 semanas, a fim de conceberem os experimentos. No total, foram propostos 72 experimentos.

O projeto selecionado chama-se “Cimento Espacial com Adição de Plástico Verde”. A ideia das crianças partiu do princípio de que, no futuro, poderemos eventualmente colonizar  outros mundos. Para que isso aconteça, é preciso pensar sobre quais materiais serão mais adequados para a construção de moradias por lá, e se o uso de cimento se mostraria viável para edificações interplanetárias. Já o plástico verde será testado por atenuar as radiações.

Esse foi o primeiro ano do projeto Garatéa ISS, mas já credenciou o Brasil para realizar outras edições, em ciclos anuais. Lucas diz que “ao mesmo tempo que vamos lançar o projeto para o espaço no dia 28 de junho, no início de agosto a gente já fará o anúncio da nova turma de 2018/2019. Vamos deixar de fazer num único local.  Queremos passar esse conteúdo para mais escolas do Brasil inteiro e ter comunidades de todas as regiões participando.”

A seguir, uma conversa com os alunos que criaram o experimento vencedor: Laura D`Amaro (Dante), Guilherme Funck (Dante), Otto Gerbaka (Dante), Sofia de Ávila (Projeto Âncora) e Natan Cardoso (Perimetral):

Qual a programação de vocês nos Estados Unidos? Vocês estão animados?

Laura D`Amaro - No dia 28 vão lançar o experimento, mas nós estaremos em um congresso que dura o dia inteiro em outra cidade (Washington). Nós preparamos uma apresentação no Powerpoint e estamos treinando para a apresentação em inglês. Estamos muito animados porque é uma experiência única a gente apresentar num congresso em outra língua, em outro país

Sofia de Ávila - Acho que é de muita importância a gente mostrar para os Estados Unidos que o Brasil também sabe fazer ciência, e também para os brasileiros que eles também conseguem, se tentarem e batalharem.

Como essa experiência  afetou a visão que vocês têm da ciência?

Laura D`Amaro - Antes, a ciência era muito aquela matéria na sala de aula: aprender as coisas, fazer a prova, e não tinha muita experiência além do laboratório. Agora, a gente conseguiu ter um contato maior com a ciência fora de sala de aula. Incentiva a gente a aprender mesmo e a gostar, não só decorar para a prova

Guilherme Funck - E colocar em prática também algumas coisas que a gente aprendeu. A gente percebeu que às vezes você não vai precisar daquilo só para a prova, você vai usar aquilo. Você não fica só pensando em estudar para a prova, você também treina um pouco como seria alguém que usa a ciência no seu trabalho.

Laura D`Amaro - É como se a gente fosse fazer a nossa própria ciência, nossas coisas, não tem aquele roteiro que temos que aprender isso, isso e isso, colocar em prática isso, isso e isso. A gente pode fazer qualquer coisa que a gente quiser.

Sofia de Ávila - A ciência muda o seu jeito de pensar. Então, você começa a dar mais valor a como tudo acontece. Se algo está acontecendo de uma forma mais fácil por meio de uma máquina você pensa: nossa, alguém teve que criar isso, o ser humano é muito inteligente.

Eu tenho um sonho de fazer letras e escrever livros de ficção científica para incentivar a ciência entre os jovens, porque eu acho que os jovens têm que aprender ciência e ver como a ciência é algo muito importante. Houve esse projeto de eu escrever um livro sobre a viagem e estamos com algumas anotações mas não tem nada feito.

Como foi para vocês conviver com alunos de escolas e realidades diferentes? Teve alguma diferença na forma do aprendizado?

Laura D`Amaro - A gente fez mais amigos de fora, juntou os conhecimentos. Vimos que nem todas as escolas são iguais, cada uma tem seu método de ensino,  seus recursos. A gente viu outra realidade também.

Sofia de Ávila - As realidades são bem diferentes mas, apesar de tudo, são pessoas. O convívio foi normal: duas pessoas conversando, não importa a escola em que eles estudam ou o método que eles usam. A troca de experiências foi extremamente rica. Cada um tendo um método diferente em cada escola, aprendeu a matéria de uma forma diferente. Então houve essa troca.

Natan Cardoso - Cada um teve seu tempo de estudo, cada um aprendeu uma coisa diferente da outra e a gente está aqui trocando o que aprendeu um com o outro.  Dentro do projeto eu consegui uma bolsa de estudos perto de onde eu moro, no Anglo Morumbi. Isso me ajudou muito. Estou animado, acho que vai ser bem diferente porque a minha escola é pública e lá é particular. O método de ensino não é tão diferente, mas o modo de convivência lá dentro pode mudar.

Como surgiu a ideia do cimento espacial?

Guilherme Funck - A gente teve a ideia (do cimento espacial) porque o Lucas veio para falar como aconteceria o projeto e falou de outros projetos, um deles era o cientista aprendiz. Daí pensei que, se a impressora 3d funcionaria no espaço, ela poderia construir outras coisas, em escala maior.

Sofia de Ávila- A gente também ficou sabendo que seria levada uma recicladora de plástico no mesmo voo do nosso experimento para a estação espacial, e pensamos em juntar o plástico com o experimento. Estudamos sobre o plástico para ver como ele poderia ajudar a gente e vimos que ele combate radiação, que é um problema frequente na estação

Guilherme Funck - Já que não tem uma camada da atmosfera no espaço para proteger da radiação, os astronautas têm muitas chances de, quando voltarem para a Terra, descobrirem que têm ou que terão câncer no futuro. Essa seria uma construção que talvez proteja da radiação.

Laura D`Amaro - Se juntarmos esse plástico e ele der certo e combater a radiação, talvez a gente consiga explorar mais o espaço.

Carolina Marcheti
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