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Seis perguntas em aberto sobre a edição do genoma humano com CRISPR

Anúncio feito semana passada trouxe incerteza a todo um campo de pesquisa

Wikimedia Commons
He Jiankui, o autor da suposta edição do genoma de dois bebês

A conferência científica durante a qual He Jiankui deu explicações sobre a alegação de que teria editado, pela primeira vez, os genomas de duas bebês gêmeas, encerrou-se com uma declaração crítica a respeito do cientista.

“Tomamos conhecimento de um anúncio inesperado e bastante perturbador de que embriões humanos teriam sido editados e depois implantados, levando à gravidez e ao nascimento de gêmeos”, diz a declaração emitida dia 29 de novembro, em Hong Kong,  pelo comitê organizador do Segundo Encontro Internacional sobre Edição de Genomas Humanos. “Mesmo que a execução das alterações seja confirmada, o procedimento foi irresponsável, e falhou em seguir as normas internacionais.”

Críticas semelhantes têm sido disparadas desde o começo da semana passada, quando circulou a informação de que He tinha usado a ferramenta de edição genética CRISPR-Cas9 para modificar o gene CCR5 em dois embriões que posteriormentes foram implantados em uma mulher. O gene codifica uma proteína que é usada por muitas cepas do vírus HIV para infectar células imunes.

A medida que a comunidade científica vai se inteirando dos eventos da semana passada, a Nature apresenta uma relação das seis grandes questões que ainda estão em aberto.

1. He Jiankui está enrascado?

No dia 27 de novembro, o ministério da Saúde da China determinou ao governo da província de Guangdong - onde fica a Universidade de Ciência e Tecnologia do Sudeste onde He trabalha - que investigue o pesquisador. Dois dias depois, o ministério da Ciência determinou que ele  cessasse qualquer atividade científica. O próprio He já havia declarado que seus estudos estavam em suspenso. Como se processará a investigação de Guangdong ainda não está claro. He foi acusado de transgredir uma diretriz de 2003 do ministério da Saúde, que no entanto não é uma lei e não implica nenhuma penalidade.   

Também não está claro se a universidade de He tomará alguma medida contra ele. Um porta-voz disse à revista Nature que “não pode compartilhar nenhuma informação sobre isso no momento” e que é preciso aguardar pelas declarações oficiais que virão “no momento adequado”. Ele está numa licença desde fevereiro de 2018, que deve durar até janeiro de 2021. Esta semana, a universidade criticou suas declarações e procurou se distanciar do seu trabalho.

Em 27 de novembro, o site do laboratório para onde He direcionava as pessoas que buscavam por mais informações  sobre os bebês, que era hospedado pela universidade, foi tirado do ar, embora uma outra página destinada ao laboratório de He continue on-line. Muitas declarações publicadas em sites do governo chinês saudando os feitos de He foram retiradas.

Uma postagem no site do ministério da Ciência descrevendo uma tecnologia de sequenciamento genômico desenvolvida por He não pode mais ser acessível. Este também é o caso de outra postagem saudando essa mesma tecnologia que saiu no site do Plano dos Mil Talentos, uma iniciativa bastante prestigiada que busca trazer acadêmicos de volta para a China. Não está claro se isso se deve aos eventos ocorridos na última semana, mas as duas postagens eram acessíveis até recentemente.   

Segundo uma declaração de seu porta-voz, Ryan Ferrel, He retornou para a cidade de Shenzhen, onde ele reside, após sua palestra na conferência, e não realizou outra participação no mesmo evento que estava agendada. “Eu voltei para Shenzhen e não participarei da conferência na quinta. Vou permanecer na China, minha terra natal, e cooperar plenamente com quaisquer inquéritos sobre meu trabalho”, diz a declaração.   

2. As afirmações de He são verdadeiras?

Muitos cientistas disseram que um grupo independente deve checar as afirmações feitas por He, através de uma comparação minuciosa entre os genes dos pais e os genes dos bebês. O problema é que o consenso é que tanto os pais quanto os bebês devem ter suas identidades preservadas.   

 “Ele os manteve no anonimato por uma boa razão”, diz o biólogo laureado com o prêmio Nobel David Baltimore, presidente do comitê organizador da conferência e ex-presidente do Instituto de Tecnologia da Califórnia, em Pasadena. “Nós nem sequer começamos a debater como se procederia para uma investigação independente”, diz ele.

A equipe de He poderia fornecer amostras anônimas. Cientistas independentes também poderiam visitar o laboratório de He para analisar os dados. Na declaração divulgada através do seu porta-voz, He disse que ele irá convidar outros pesquisadores independentes para que conduzam uma investigação independente. “Meus dados brutos serão disponibilizados para revisão por terceiros”.  

Ele também diz que submeteu seus estudos sobre edição do genoma humano para revistas científicas para publicação. Ele disse a alguns cientistas que um artigo será publicado próximo ao fim do ano, mas não especificou em qual revista científica. Mas mesmo que isso ocorra, as rígidas leis chinesas para recursos genéticos impediriam He de publicar as sequências genéticas dos pais ou das crianças.  

3. Como exatamente o CRISPR foi usado para editar os genomas das gêmeas?

Na falta de artigos em revistas científicas com revisão por pares ou de pré-publicações que apresentem o trabalho de He, alguns cientistas estão analisando sua apresentação na conferência para tentar entender como os genomas das gêmeas teriam sido editados, e as possíveis consequências das alterações.  

Gaetan Burgio, um geneticista da Universidade Nacional da Austrália em Canberra, que trabalha com edição de genes por CRISPR, diz que os dados brutos de sequenciamento que He mostrou em sua apresentação sugerem que as células dos bebês abrigam diversas versões do gene CCR5, com deleções de diferentes tamanho no DNA. Este “mosaicismo” pode ocorrer quando se usa CRISPR para editar, de formas diferentes, os genomas de células embrionárias iniciais, ou quando se deixa algumas sem nenhuma edição. Casos de mosaicismo já foram relatados anteriormente por pesquisadores que editaram os genomas de embriões humanos com o propósito de realizar pesquisas.

Sean Ryder, pesquisador especializado em DNA da Escola Médica da Universidade de Massachussets apontou numa postagem no tweeter outros motivos para preocupação.  Na conferência, He Jiankui disse que havia optado pelo gene CCR5 porque algumas pessoas possuem, naturalmente, uma certa mutação ali - uma deleção de 32 letras, que é chamada de delta 32 - que torna o gene inativo.  Mas Ryder diz que as deleções de CCR5 que He alega ter realizado no genoma dos bebês usando CRISPR não são idênticas à delta 32. “Nenhuma das três [deleções] é igual à já bem conhecida mutação delta 32 e, até onde eu sei, nenhuma delas foi estudada em modelos animais.  Isso é algo inconcebível”, escreveu ele no post.

4. Quando aparecerá o próximo humano com genoma editado?

Enquanto Jennifer Doudna, uma pioneira no desenvolvimento da CRISPR/Cas-9, escutava a apresentação de He durante a conferência, uma ideia girava em sua mente. “Eu pensava sobre as possibilidades de uso antiético da tecnologia por parte de cientistas desonestos. É um risco real”, diz Doudna, bioquímica que trabalha na Universidade da Califórnia em Berkeley.

Antes mesmo que o trabalho de He viesse a público, muitos cientistas já temiam que alguém estivesse muito próximo de criar uma pessoa com genoma editado. O biólogo George Daley, reitor da Escola Médica Harvard, em Boston, e membro do comitê organizador do seminário, destaca outro procedimento, que substitui o DNA mitocondrial danificado de um embrião por DNA mitocondrial saudável de outra pessoa, eliminando assim mutações que são causa de doenças. Embora essa terapia de substituição de DNA careça da aprovação das autoridades médicas dos EUA, uma equipe de pesquisadores a utilizou para gerar um bebê no México em 2016. “É provável que ocorram outros casos de edição gênica em embriões usando CRISPR/Cas9, apesar de nossos pedidos de prudência”, diz Daley.

Na conferência  em Hong Kong, os cientistas debateram sobre a possibilidade de que esteja próximo um anúncio de algum experimento envolvendo a edição de células humanas germinativas - onde se modificam  genes que são transmitidos às futuras gerações. “Há bons motivos para se estar preocupado”, disse Baltimore. “Se alguém que trabalha nesta área souber de algum indício de que algo assim está em andamento, deve avisar as autoridades.”

5. Será que o anúncio de He vai prejudicar as iniciativas eticamente corretas que visam editar células germinativas?

Muitos pesquisadores temem que a revelação do trabalho de He possa estorvar o futuro da edição de células germinativas. “Nos EUA, já há quem defenda proibições drásticas, algo que se opõe frontalmente aos objetivos da ciência”, diz Baltimore.

No rastro dos eventos da semana, Scott Gottlieb, diretor do FDA, a agência do governo americano que regula medicamentos e alimentos, fez comentários que geraram preocupação entre os cientistas. “Os governos terão que reagir”, disse ele a um site. E no dia 28 de novembro, Francis Collins, diretor dos Institutos Nacionais de Saúde dos EUA deu uma declaração afirmando que “a necessidade de se estabelecer um consenso internacional que imponha limites a este tipo de pesquisa, que está agora sendo debatida em Hong Kong, nunca foi tão evidente.”  

A declaração que foi emitida no fechamento da conferência faz um apelo para que se mantenha aberto um caminho para que seja possível transformar, de maneira segura, as tecnologias de edição gênica em tratamentos. “A edição de células germinativas pode se tornar aceitável no futuro, se os riscos [que ela apresenta] forem superados.”  

Mas a polêmica despertou interesse mundial pela edição das células germinativas, e o medo de que a área fique “na geladeira” parece ser excessivo. “Devem existir mulheres animadas pela possibilidade de colaborarem com a pesquisa”, disse durante o seminário Judith Dar, da Escola Irvine de medicina e Direito da Universidade da Califórnia, quando indagada se a controvérsia poderia dissuadir mulheres de doarem seus óvulos para pesquisa no futuro. “A primeira reação seria dizer que isto é um desastre e que poderia desencorajar a participação. Mas sempre fico impressionada com a variedade de reações”, disse.

6. Como no futuro os cientistas poderão assegurar um acompanhamento melhor da edição de células germinativas?

“Não temos uma metodologia pronta, mas estamos conversando com as sociedades científicas”, disse Baltimore. “Trata-se de um desafio mundial.” A declaração apresentada no fim da conferência pelo comitê organizador sugere que as academias científicas ao redor do mundo devem fazer recomendações aos seus respectivos governos, e ao mesmo tempo atuarem de forma coordenada umas com as outras. Também propõe a criação de um fórum internacional que iria centralizar todas as pesquisas e ensaios clínicos através de um registro internacional, e debater temas como a equidade no acesso aos benefícios da tecnologia de edição gênica. Mas a edição gênica em embriões humanos pode interessar a um variadíssimo perfil de pesquisadores, e isso poderia dificultar o processo de criar e manter uma organização em tais moldes. “Praticamente todos os laboratórios que trabalham com biologia molecular estão usando esta técnica”, disse Daley.

O comitê também sugeriu a criação de uma “rota para a aplicação” que assegure uma via rigorosa e responsável que leve a edição de células germinativas até as clínicas de tratamento. Alta Charo, um pesquisador em bioética da Universidade Wisconsin Madison e membro do comitê organizador do seminário, disse que as expectativas têm de ser realistas. “Não se pode esperar algo perfeito. O que se pode fazer é minimizar tais incidentes com penas que castiguem comportamentos perigosos.”    

A próxima conferência sobre edição do genoma humano vai acontecer em Londres, em 2021.

David Cyranoski

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