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Será que os meninos da Tailândia contraíram doenças na caverna?

Garotos resgatados passam por exames para possíveis doenças transmitidas por animais

Jessica Tait / United States Department of Defense
Pilotos do Comando Indo-Pacífico dos EUA reúnem-se com oficiais militares tailandeses e uma empresa de engenharia tailandesa em Chiang Rai, Tailândia, para aconselhar e auxiliar a operação para resgatar membros do time de futebol e seu treinador

Os membros da equipe de futebol juvenil que ficaram presos em um complexo de cavernas na Tailândia foram resgatados mais de duas semanas após as inundações súbitas. Agora eles estão se recuperando em um hospital na cidade de Chiang Rai, no norte do país. Além de serem tratados devido a desidratação potencial, desnutrição e privação de oxigênio, os médicos também planejam monitorá-los de perto quanto aos sintomas de doenças que podem ter sido transmitidas pelos animais que vivem no sistema de cavernas. As operações para resgatar os 12 meninos (de idades entre 11 e 17) e seu treinador foram encerradas hoje.

O "próximo passo é garantir que essas crianças e suas famílias estejam seguras, porque uma caverna é um ambiente diferente, que pode conter animais capazes de transmitir doenças", diz uma declaração do Hospital Chiangrai Prachanukroh. Os meninos e seus familiares foram orientados a comunicar caso percebam sintomas como dor de cabeça, náusea, dores musculares ou dificuldade para respirar, acrescentaram os relatos.

No entanto, com base no local onde os meninos estavam presos - a mais de quatro quilômetros da entrada principal do complexo de cavernas, após os locais totalmente submersos - e pelo fato de terem nadado usando máscaras de mergulho, é improvável que estivessem convivendo com morcegos ou que tenham inalado patógenos associados a esses animais durante o resgate, disseram vários especialistas em doenças infecciosas à Scientific American. "É difícil imaginar que os morcegos tenham penetrado tão fundo na caverna por causa de todas essas passagens estreitas, mas é possível", diz Ian Lipkin, especialista em zoonoses e professor de epidemiologia da Escola de Saúde Pública da Universidade de Columbia. "É improvável que haja muitos animais lá", observa Jonathan Epstein, veterinário e epidemiologista da EcoHealth Alliance, uma organização sem fins lucrativos que estuda as pandemias e como evitá-las. Os morcegos normalmente gostam de se empoleirar em áreas nas quais podem entrar e sair facilmente, não em locais totalmente inundados, acrescenta.

Na Tailândia, os morcegos têm sido associados a uma ampla gama de vírus - incluindo o Nipah, que pode causar inflamação no cérebro, e outros similares à síndrome respiratória aguda grave (SARS, na sigla em inglês) - diz Lipkin. Contudo, o mais provável é que os meninos foram expostos a bactérias causadoras de infecções quando nadaram pela água suja com cortes e arranhões. "Se a prioridade para as crianças são questões relacionadas a saúde, em primeiro lugar viria a preocupação com danos psicológicos e em segundo as infecções bacterianas que podem tê-los infectado devido a seus cortes e arranhões - coisas como tétano", diz Lipkin.

Ao receberem atendimento médico, os meninos serão questionados sobre os elementos aos quais foram expostos e se viram algum morcego ou cocô de morcego, diz Amesh Adalja, médico infectologista e pesquisador do Centro Johns Hopkins para a Segurança da Saúde. A raiva, por exemplo, costuma ser tratada profilaticamente se alguém dormir na presença de um morcego. "Mas se não havia morcegos na caverna, muito menos preocupações com coisas como a raiva ou doenças perigosas espalhadas pela inalação de excrementos de morcegos infectados", diz Adalja.

Um dos principais desafios para a equipe de cuidados médicos dos meninos será distinguir quais problemas de saúde ocorrem devidos à desidratação e estresse e quais podem ser sinais de infecção, porque os sintomas podem parecer semelhantes, observa Adalja. Febre e aumento da freqüência cardíaca podem ocorrer devido a qualquer um desses fatores, diz ele. “Isso é o que se espera ver em alguém sob esse tipo de estresse severo - eles não sabiam se sobreviveriam e depois passaram por este resgate angustiante.”

Além de tratar arranhões e hematomas com antisséptico para evitar infecções, eles podem ter problemas gastrointestinais relativamente comuns que também precisam de cuidados. Os sobreviventes defecaram na caverna e podem ter bebido água contaminada como resultado, diz Adalja - essa água também pode estar repleta de bactérias provenientes da chuva. Nos próximos dias, ele diz, "é importante que sejam feitos exames da cabeça aos pés além de pensar sobre a que eles podem ter sido expostos na caverna e na água".

Dina Fine Maron

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