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Terapia com bactéria reverte déficits sociais associados ao espectro autista em animais

Mudanças na flora intestinal afetaram processamento de neurotransmissores

Pixabay

Uma abordagem não convencional teve sucesso em alterar déficits de comportamento social associados aos transtornos do espectro do autismo (TEA) em camundongos. Pesquisadores da Faculdade de Medicina Baylor relatam na revista Neuron que a administração da bactéria Lactobacillus reuteri pode levar a mudanças específicas no cérebro que reverterem os déficits sociais através de um mecanismo que envolve o nervo vago e o sistema de recompensa da oxitocina-dopamina. Essas descobertas dão esperanças para o desenvolvimento de novas terapias para distúrbios neurológicos pela modulação de micróbios específicos no intestino.

"Em 2016, descobrimos que camundongos descendentes de mães alimentadas com uma dieta rica em gordura tinham déficits sociais e alterações no microbioma intestinal caracterizadas por uma redução na abundância da bactéria L. reuteri. Mais importante, a restauração dos níveis de L. reuteri na prole reverteu seus déficits sociais", disse o autor Mauro Costa-Mattioli, professor de neurociências e diretor do Centro de Pesquisa Cerebral e da Memória na Faculdade de Medicina de Baylor e que possui uma cátedra na Fundação Cullen. “No entanto, este modelo de TEA representa apenas um dos inúmeros mecanismos subjacentes da condição. Por isso, decidimos investigar se nossas descobertas se aplicariam a outros modelos com origens diferentes ".

As causas do TEA podem ser de origem genética, ambiental ou idiopática, explica Costa-Mattioli, e existem modelos com camundongos imitando cada uma dessas condições. Assim, os pesquisadores investigaram se a L. reuteri também poderia resgatar o comportamento social em outros modelos de camundongos que possuem diferentes causas para sua TEA. Surpreendentemente, eles descobriram que, de fato, a L. reuteri pode desencadear a recuperação de comportamentos sociais em todos os modelos testados: genético, ambiental e idiopático. Isso sugere que a abordagem microbiana poderia melhorar o comportamento social em um subconjunto mais amplo do TEA pois aplicam-se a outros modelos com origens diferentes. 

Os pesquisadores então aplicaram múltiplas abordagens técnicas para explorar o mecanismo que medeia o resgate do comportamento social pela L. reuteri em um modelo de camundongo com TEA. “Descobrimos que a L. reuteri promove o comportamento social através do nervo vago, que conecta bidirecionalmente o intestino e o cérebro”, disse uma das autoras, Martina Sgritta,  pós-doutoranda no laboratório Costa-Mattioli.

Sabe-se que, quando o nervo vago está ativo, ele libera oxitocina, um hormônio que promove a interação social. A oxitocina é liberada nas áreas de recompensa do cérebro, onde se liga a moléculas chamadas receptores de oxitocina, desencadeando uma sensação de “recompensa” social. Sgritta e seus colegas testaram se a interrupção da conexão do nervo vago entre o intestino e o cérebro ou a interferência na ligação da oxitocina e seus receptores afetaria a capacidade do L. reuteri de restaurar comportamentos sociais em modelos de camundongos com TEA. "Curiosamente, descobrimos que quando o nervo Vago entre o cérebro e o intestino foi rompido, a L. reuteri não conseguiu restaurar o comportamento social em camundongos com TEA", disse Sgritta. “Além disso, quando modificamos geneticamente os camundongos de forma que faltassem receptores de oxitocina nos neurônios de recompensa ou bloqueamos os receptores com drogas específicas, a L. reuteri também não conseguiu restaurar os comportamentos sociais nos camundongos com TEA.”

“Começamos a decifrar o mecanismo pelo qual um microrganismo intestinal modula a função e os comportamentos cerebrais. Isso pode ser fundamental no desenvolvimento de novas terapias mais eficazes”, disse Costa-Mattioli. “De fato, achamos que nossas descobertas reforçaram a idéia não-convencional de que seria possível modular o comportamento específico através do microbioma intestinal usando cepas bacterianas selecionadas".

Coletivamente, as descobertas descritas aqui poderiam mudar radicalmente a maneira como pensamos sobre o TEA e seu tratamento, e poderiam ter uma influência profunda na vida das pessoas com este distúrbio e outros a ele relacionados.

 Faculdade de Medicina Baylor

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