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Uma questão política, mas não partidária

Professora da UFRJ candidata a Deputada Federal defende que Universidade tenha seus próprios representantes no Congresso Nacional e critica teto de gastos

Assim como pelo menos mais três candidatos vindos da academia, a matemática carioca Tatiana Roque, 48, quer ocupar uma cadeira no Congresso federal.  Candidata pelo PSOL do Rio de Janeiro, professora do Instituto de Matemática da UFRJ, ela foi presidente do sindicato de professores da Universidade entre 2015 e 2017, de onde emergiu como liderança a partir da mobilização contra os cortes no orçamento para  Ciência e Tecnologia. Nesta entrevista, ela fala de suas propostas para um eventual mandato.

Scientific American Brasil - Por quê você decidiu tentar uma candidatura?

Tatiana Roque - Nos últimos dois anos fui presidente do sindicato dos professores da UFRJ e tentei realizar uma gestão bem diferente do estilo tradicional de gestão do sindicato. Muitos professores não se sentiam muito representados,  o sindicato não tinha uma atuação muito voltada pras questões da Universidade, da pesquisa, para as questões dos professores mesmo.

Normalmente havia pautas um pouco externas. Fui eleita em oposição à essa prática que estava na universidade. A gente conseguiu se aproximar muito dos cientistas, pesquisadores e da sociedade científica, porque a gente se voltou mais para um modo de fazer política e para questões que eram mais próximas.

Essa união criou uma mobilização muito grande quando, em 2016, começaram os cortes e algumas medidas de desmonte da Universidade, de diminuição do orçamento para C&T. Muitos na Universidade viram a necessidade de ter uma representação própria no Congresso Nacional.

Fizemos uma campanha que teve muita repercussão contra os cortes, se chamava “conhecimento sem cortes”. Tivemos uma atuação no Congresso Nacional, fizemos algumas mobilizações, fizemos muitas ações porque os últimos dois anos foram muito ruins para a Universidade e para a pesquisa, e eu me destaquei como uma liderança da área, por fazer  um ativismo novo por essas pautas

Estamos vivendo um deserto político, um momento político muito ruim. Ao mesmo tempo há uma demanda de novas pessoas e lideranças na política, sem muitas pessoas se dispondo para essa tarefa. Então surgiram várias propostas, tanto da própria comunidade científica como de partidos, para que eu me candidatasse e eu topei esse desafio. Optei pelo PSOL porque acho um partido coerente, honesto, que também defende essas pautas da Universidade pública e é contra a austeridade.

Scientific American Brasil - Como você vê o panorama do corte de gastos?

Tatiana Roque - A pesquisa científica em todos os lugares do mundo é feita com recursos públicos. O Brasil tem tradição de um projeto de estado de investimento em C&T desde os anos 1960. Nos anos 1950 já houve mobilização de cientistas e setores do governo para criar as agências financiadoras e alguns institutos de pesquisa.  Como o Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, depois o Conselho Nacional de Pesquisas (que hoje é o CNPQ), o Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA), todos foram instituições criadas nesse período, entre 1949 a 1952.

Depois disso, com a mobilização da comunidade científica, da Academia Brasileira de Ciências, que já existia desde antes, conseguimos criar um ministério especificamente para a ciência e tecnologia, o MCT. A ideia era que o Brasil tivesse uma política de estado para a C&T para investir na industrialização e ter um desenvolvimento mais soberano. Isso deu frutos em alguns momentos, mais do que em outros. Mas o que aconteceu agora é que esse ministério acabou, e se fundiu com o ministério das comunicações. Isso representa que não temos uma política nacional para a C&T, o que foi muito ruim. Ainda por cima começaram os cortes, começou esse desmonte… Precisamos nos mobilizar muito para poder recuperar a política de investimento público que a gente teve nos últimos anos.

Scientific American Brasil -  O que você pretende propor caso venha a ser eleita?

Tatiana Roque - No caso da Universidade, há duas coisas. Primeiro,  temos hoje uma Universidade que é muito mais democrática. A gente precisa mantê-la assim. Para isso, os alunos precisam de assistência estudantil. No caso da ciência, a gente precisa de investimento em pesquisa e inovação para que o Brasil possa ter um modelo de desenvolvimento mais tecnológico, mais sustentável. E tudo isso está sendo bloqueado hoje pela emenda constitucional do teto de gastos aprovada em 2016. Então minha prioridade vai ser derrubar essa emenda constitucional, porque ela tem um efeito muito ruim no orçamento porque ela coloca diversas áreas do orçamento em disputa, a saúde, a educação, a cultura, a tecnologia.

É preciso revogar essa emenda e também ter uma ação no Congresso Nacional muito incisiva a favor da manutenção do investimento público em educação e saúde. Porque um dos objetivos desta emenda constitucional é flexibilizar o mínimo constitucional com educação e saúde. A Constituição aprovada em 1988 instituia a saúde e a educação como direito de todos e dever do estado, e isso não era apenas abstrato, era tornado concreto pela designação de um mínimo constitucional. O que está sendo visado hoje, com essa emenda, é flexibilizar esse mínimo, o que é muito ruim pra essas áreas.

Scientific American Brasil - Muitas instituições científicas e líderes de instituições têm associado a defesa da pesquisa a temas de disputa partidária como a denúncia do impeachment. Como você vê isso?

Tatiana Roque - Acho que a defesa da pesquisa na Universidade não é partidária, mas é política. O que aconteceu no Brasil nos últimos anos foi a derrubada, completamente arbitrária, de uma presidente eleita. Está claro, com a agenda que estão querendo implementar, que isso ocorreu para concretizar políticas de austeridade, de restrição do orçamento público. Eu diria que foi uma medida arbitrária e neoliberal de austeridade para diminuir as políticas que tinham sido implementadas nos últimos anos e que foram positivas para Universidade e para a C&T. As medidas precisavam ser aprofundadas, mas estavam sendo positivas, nós estávamos melhorando nessas áreas. Agora o que estamos vivendo é uma reversão. Acho que é uma questão política fundamental. A resistência envolve diferentes partidos, não é uma questão partidária porque não é nem a questão de um partido só, mas é uma questão política.

Esse é um projeto político de diminuição do papel do estado na saúde, na educação, as universidade, na economia e na C&T. É um projeto amplo de diminuição do setor público e de restrição do orçamento, são políticas de austeridade. Eu acho que existe uma divisão entre um projeto político que é aquele da austeridade e um projeto político que é aquele que vê a importância do papel do estado em algumas áreas estratégicas como a educação, saúde, C&T

Scientific American Brasil - Como o recente incêndio no Museu Nacional afeta sua candidatura?

Tatiana Roque - Precisamos de uma bancada que lute pela ciência, pela educação e pela cultura mostrando que são prioridades para o país. O museu simbolizava justamente a união dessas três áreas que minha candidatura representa.

Carolina Marcheti

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